Por que NÃO aceitámos Bitcoins?

Bitcoins

É raro ainda no mercado português, porém o mercado brasileiro vem sendo inundado por operadores e corretores de Bitcoins. Alguns clientes, face a essa nova tendência, já nos hão perguntado: por que NÃO aceitam Bitcoins?

Há duas respostas diferentes para tal questão. Para brasileiros, o argumento é um, mas para portugueses é outro completamente distinto. Porém, antes que nos caia o mundo sobre as cabeças, vale lembrar: não somos de forma alguma contra a inovação e a tecnologia.



Aceitar Bitcoins – carroça à frente dos burros

Por sermos uma empresa voltada ao campo tecnológico e à web, parece estranho dizer tal coisa. Mas a verdade é que, especialmente no caso do mercado português, aceitar Bitcoins é colocar a carroça à frente dos burros.

Somos um empresa atualmente sediada em Viana do Castelo. Ao caminhar pelas ruas, pede-se averiguar que quase 50% dos comércios sequer aceitam pagamentos em Multibanco. Solicitadores, contabilistas e órgãos públicos, conservatórias e lotarias – apenas aceitam pagamentos em dinheiro vivo.

Quando seguimos para o ramo de serviços, as possibilidades de pagamento variam um tanto, porém há um factor relevante: são pouquíssimos os prestadores que utilizam soluções tecnológicas em cobranças e movimentações. Não se usa PayPal, nem mesmo soluções de cámbio de moedas online. Gateways de pagamento são usados por lojas online em Portugal, alguns deles inclusive nacionais e bem estruturados. Contudo, exigências burocráticas ainda os obrigam a cumprir um processo lento e moroso para habilitar ferramentas de pagamento – envio de contratos firmados em papel, cópias de documentos, ligações e até visitas físicas.

Em relação à facilidade existente com o PayPal em mercados como o norte-americano, trata-se de um absurdo. A verdade é que estamos agora a absorver e acostumarmos com métodos de pagamento online e sistemas informáticos de controlo e gestão de finanças (que não softwares obsoletos e “instalados” em nossas máquinas).

Com tudo isso ainda em curso ou por resolver, aceitar-se Bitcoins seria como querer descobrir a lâmpada antes do fogo.

Aceitar Bitcoins – mercado em oscilação

Produtos e serviços possuem determinado preço e, principalmente, custos que são assumidos por aqueles que os oferecem. O Bitcoin é uma moeda virtual cujo nível de oscilação torna a prestação de serviços ou venda de produtos uma verdadeira aposta de caráter financeiro. Sim, poderá auferir mais do que realmente cobrou por determinado produto, porém há chances equivalentes de não cobrir custos.

Um negócio de pequeno ou médio porte não pode atrelar sua faturação a instrumentos financeiros cuja oscilação reproduza ativos financeiros de renda variável. A lógica de aquisição de insumos e quitação de impostos e taxas para um negócio mais pequeno impedem que o seu caixa esteja submetido a operação consideradas de risco. A despeito dos ganhos prometidos pelo atual mercado de criptomoedas, ao submeter faturação direta e presente, um empresário pode tornar excelentes meses de vendas em períodos amargos de prejuízos.

Aceitar Bitcoins – uso restrito

A parte majoritária do mercado contemporáneo de Bitcoins e outras criptomoedas está ligado a investimentos financeiros, corretoras e compra e venda de moedas outras. Pouquíssimas são as empresas que já aceitam a moeda virtual como forma de pagamento, mesmo entre gigantes de tecnologia. Google, Facebook, Amazon e tantos outros não o aceitam ainda – o que torna necessária a conversão da moeda para dólar ou euro, por exemplo, para que valores de fato venham a ser utilizados.

Novamente, uma pequena empresa não pode dar-se ao luxo de operar com ativos de relativa ou baixa liquidez, sob riscos de falhar ao recolher seus impostos ou pagar seus próprios fornecedores.

Aceitar Bitcoins – relativamente fiável

As transações realizadas dentro do ambiente do Bitcoin são autênticas e confiáveis, embora o mesmo não se possa dizer de todas as corretoras e startups que permitem o ingresso nesse mercado. Para lidar com Bitcoins, é preciso constituir carteiras virtuais que operam transações com a moeda e registam valores e saldos. Episódios em todo o mundo mostram que, ainda que as transações em si sejam legítimas, ainda há imensos casos de corretoras que “somem” com carteiras de seus clientes.

Ademais, o Bitcoin e outras criptomoedas ainda operam em uma “área cinza” no que se refere a governos. Poucos são os governos em todo o mundo que já dispõem de regulamentação clara para operações com a moeda e tantos outros ainda refutam um reconhecimento oficial a tal mercado. No tocante a Portugal, ainda teremos provavelmente um par de anos até que se torne mais clara a situação.