5 razões para eliminar QR codes dos negócios

qr codes

O empresário português, por alguma razão específica, adorou a cena dos QR codes. Metem em todo lado, querem de qualquer modo nos cartões de visita, em panfletos, banners, catálogos. A aparente aderência à inovação esconde uma visão equivocada do que é tecnologia – e ignora problemas óbvios de usabilidade no que concerne aos QR codes.

Toda a tecnologia que resulta necessariamente precisa de simplificar ou facilitar a vida dos seus usuários. Não fosse assim, ainda estaríamos a telegrafar ou conduzir viaturas movidas a vapor. A inovação que resulta sempre economiza recursos (entre eles o tempo), transforma processos longos em processos mais simples e com menos etapas e cria conforto e facilidade para os seus usuários.



Elimine os QR codes – estética

Primeiramente falemos de estética. Ao contrário dos códigos de barras tradicionais – que grosso modo são capazes de caber em qualquer tipo de design, embalagem ou contexto – QR codes são o que chamamos de “intrusivos”. Seu formato não permite muita modificação e, por conta do método de leitura, precisam de ter um tamanho mínimo.

qr codes

Sejamos francos – bonito ele de facto não é.

Vamos admitir a realidade: QR codes são simplesmente feios. E, além de feios, precisam ser minimamente grandes e interferir no design para que resultem em sua função inicial. Pode-se argumentar que isso é “conversa de designer”, mas quando temos a maioria esmagadora dos profissionais de uma mesma área a renegar determinado conceito ou elemento, há ali alguma coisa de errado.

Elimine os QR codes – inutilidade

Há sim uma série de informações que se pode agregar a um QR code. Contudo, um número limitado de informações. Para os defensores da tecnologia, parece o “máximo” que possamos simplesmente aceder a um link ou número de telefone ao apontar o telemóvel para o objeto.

A cena em si é realmente bastante forte, mas se analisamos cuidadosamente a realidade dos factos, chegamos à conclusão de que essa visão é um tanto romântica. A verdade é que, mesmo após fixar o telemóvel nos QR codes e aceder a um link, alguns usuários descobrem algo que não estavam a buscar ou mostra-se inútil em seu dispositivo. Por exemplo, QR codes que apontam para sites que não são responsivos, ou simplesmente QR codes que apontam números de telefone para que o cliente ligue, quando na verdade esse gostava de enviar um e-mail.

As complicações e frustrações relacionadas às informações de facto contidas nos QR codes tornam estes inúteis para a maioria daqueles que utilizam a tecnologia – e o número dos que realmente chegam a usar o código para algo, acredite, é muito menor do que esperamos que seja.

QR codes

Se é preciso explicar esse tanto apenas para que o usuário SAIBA como ler o código, é porque não está a resultar.

Elimine os QR codes – estatísticas mentirosas

O marketing em QR codes, como todo outro tipo de marketing, usa estatísticas aparentemente espetaculares, mas divulgadas às empresas pela metade. O empresariado português ainda acredita que o produto “físico” é o principal canal de comunicação com o público: daí a coqueluche dos QR codes e também dos autocolantes em viaturas e carrinhas. A verdade é que, se consideramos a proporção de retorno dos QR codes, toda a fé que se empresta a essa tecnologia vai por terra.

A Kellog’s, de cereais, lançou uma campanha do produto Crunchy Nut em 2011. As caixas do cereal traziam um QR code impresso que, quando lido, apontava para um vídeo da campanha. A marca comemorou os quase 40 mil views conseguidos com a campanha. No entanto, embora o número pareça impressionar, tal estatística ignora dois factos relevantes:

  1. Foram vendidas, no mesmo ano, quase 10 milhões de caixas do produto. Isso significa que menos de 0,004% dos compradores de facto se dispuseram a ler o QR code impresso na caixa.
  2. Um volume de 40 mil views em determinado vídeo, para uma marca desse poderio, é na realidade bastante baixo e aquém das expectativas.

Elimine os QR codes – e o RGPD?

Pois bem – a questão do RGPD obriga empresas a alertar e informar usuários a respeito do rastreio que estejam a fazer ou dos dados que estão a ser recolhidos, bem como o uso que será feito dessas informações. Mas como recolher consentimento claro a partir de um QR codes? Quererá mesmo o usuário que aponta para o código ser rastreado em relação à sua localização, dispositivo utilizado, IP, etc?

Ainda não há grande discussão sobre o assunto, porém o QR code pode se tornar, além de intrusivo e antiestético, um motivo para coimas ou punições. A interpretação é bastante vaga nesse caso, mas uma coisa é certa e líquida – quem quer que esteja a aceder um link por meio da leitura de um QR code não sabe quais dos seus dados e comportamentos estão a ser monitorados.

Elimine os QR codes – é só apontar!

Nada é mais mentiroso do que a suposta “facilidade” do processo de leitura de um QR code. Ainda que alguns telemóveis mais modernos tragam softwares em suas câmeras já configurados para a leitura dos códigos, há que se considerar alguns aspetos adicionais:

  1. Muito pouca gente possui tais telemóveis com leitura de QR codes “built-in”. Por quê? Simples: eles são os mais caros e modernos, com preços que facilmente excedem um ordenado mínimo em Portugal.
  2. Mesmo dentro daquele grupo de pessoas que possui um telemóvel com tal capacidade, é mínimo o número delas que SABE que seu aparelho possui tal recurso.
  3. Ok, a pessoa possui um telemóvel com o recurso e sabe disso. Agora, contudo, ela ainda precisará curvar-se, esticar os braços, aproximar-se da peça publicitária com o QR code ou mesmo descer da sua viatura, para conseguir apontar direito o leitor para o código impresso nas traseiras da carrinha que está à frente.

As barreiras são imensas. E, lembre-se, os itens anteriores referem-se apenas àquelas pessoas que possuem aparelhos capazes de ler os códigos sem qualquer tipo de instalação ou configuração adicional. A verdade, por outro lado, é ainda mais desanimadora. Para a grande maioria dos usuários, o processo normal para leitura de um QR code envolve:

  1. Verificar a existência de uma rede wi-fi ou possuir banda 3G ou 4G para aceder à web.
  2. Transferir e instalar um app que faça a leitura do QR code.
  3. Abrir o app, após a instalação, e apontar a câmera para o código impresso.
  4. Esperar a leitura (e rezar para que o sinal de internet ainda exista) da informação contida no QR code.
  5. Aceder ao website da empresa do QR code (se esse for responsivo), enviar um e-mail (novamente, se houver internet) ou telefonar para o número lido a partir do código (e, claro, pagar por essa ligação).

Não é necessariamente um “erro” usar um QR code, mas o problema está exatamente em jamais considerar todas essas possibilidades antes de optar pelo uso de tal tecnologia. Sim, muitos especialistas consideram o QR code uma tecnologia já ultrapassada, que sequer conseguiu grande aderência junto ao público em algum momento. As novas fronteiras da chamada realidade aumentada deverão tornar o código algo completamente dispensável nos próximos anos, de modo que qualquer empresas deveria estar pelo menos a perguntar: vale a pena investir ou acreditar em tal expediente?